domingo, março 20, 2011

Primavera 2011




Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago

quarta-feira, março 16, 2011

Neve na Madeira










domingo, fevereiro 06, 2011

Trabalhos do Olhar








Trabalhos do Olhar


Escrevo-te a
sentir tudo isto...e num instante de maior lucidez
poderia ser o rio as cabras escondendo o delicado
tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia poderia erguer-me como o castanheiro dos
contos sussurrados junto ao fogo e deambular trémulo com as
aves ou acompanhar a sulfúrica borboleta
revelando-se na saliva dos lábios poderia imitar aquele
pastor ou confundir-me com o sonho de cidade que a
pouco e pouco morde a sua imobilidade........
habito neste país de água por engano são-me
necessárias imagens , radiografias de ossos rostos
desfocados mãos sobre corpos impressos no papel e nos
espelhos repara.....nada mais possuo a não ser este recado que hoje
segue manchado de finos bagos de romã repara....
como o coração de papel amareleceu no
esquecimento de te amar.....

Al Berto