sábado, abril 18, 2009

Dia Internacional dos Monumentos e Sítios

Torre da Igreja do Convento de Santa Clara


Vivo em Lembranças, Morro de Esquecido

Doces lembranças da passada glória,
Que me tirou fortuna roubadora,
Deixai-me descansar em paz uma hora,
Que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho na alma larga história
Deste passado bem, que nunca fora;
Ou fora, e não passara: mas já agora
Em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, morro de esquecido
De quem sempre devera ser lembrado,
Se lhe lembrara estado tão contente.

Oh quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
Se conhecer soubera o mal presente.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

sexta-feira, abril 10, 2009

A CRUZ





HINO À CRUZ GLORIOSA

A cruz gloriosa de Senhor ressuscitado
é a árvore da minha salvação:
dela me alimento, nela me deleito,
nos seus ramos me estendo.
O seu orvalho me reconforta,
a sua brisa me fecunda,
à sua sombra ergui a minha tenda.
Na fome alimento,
na sede fonte,
na nudez roupagem.
Augusto caminho,
minha estrada estreita,
escada de Jacob,
leito de amor
das núpcias do Senhor.
No temor defesa,
nas quedas apoio,
na vitória a coroa,
na luta és o prémio.
Árvore da salvação,
Pilar do universo,
o teu cimo toca os céus
e nos teus braços abertos
chama-me o amor de Deus.

domingo, março 22, 2009

Lágrimas





Lágrimas

Ela chorava muito e muito, aos cantos,
Frenética, com gestos desabridos;
Nos cabelos, em ânsias desprendidos
Brilhavam como pérolas os prantos.

Ele, o amante, sereno como os santos,
Deitado no sofá, pés aquecidos,
Ao sentir-lhe os soluços consumidos,
Sorria-se cantando alegres cantos.

E dizia-lhe então, de olhos enxutos:
- "Tu pareces nascida da rajada,
"Tens despeitos raivosos, resolutos:

"Chora, chora, mulher arrenegada;
"Lagrimeja por esses aquedutos...
-"Quero um banho tomar de água salgada."

Cesário Verde

sábado, março 14, 2009

Alpinistas urbanos





Esta Gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"