segunda-feira, setembro 15, 2008

ON 3 - escultura





(É NESTA CASA SEM JANELAS)



É nesta casa sem janelas que mora
dulcineia! dulcineia! já antes se mostrara
que, do amor, só conhecemos a ideia;


ficou-me a glória de dizer-lhe o nome, e em verso fosco
desenhar-lhe a figura, a sem figura. Digo,



do mar ausente, a amurada, o parapeito;
dos vastos campos, a amplidão celeste;
da água, o seu rumor nos tornozelos.


fiquei-me gordo e só, na estrebaria imunda,
roendo coisas vãs pelos cabelos,
a arremessar com folhas a gigantes.


E agora vou nascer, num só instante;
ser, de uma ilha, o rei deposto e vivo;
tornar-me, também eu, falso gigante.




António Franco Alexandre